Nossa história

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22

nov

2019

Por: Fernanda Pessanha

Meu nome é Fernanda, tenho 44 anos, me casei em 2010, e sempre sonhamos em ter filhos e constituir uma família. Como namoramos durante 8 anos e já tínhamos 2 anos de casados e a minha idade já estava avançada para ter filhos, logo já tentamos a primeira gravidez.

Não demorou nada e em mais ou menos em 6 meses já engravidei. Foi uma festa…. Alegria em todos da família. Meu marido até publicou nas redes sociais, transbordamos de felicidade.

Até que no segundo ultrassom não foi visto mais o coração do bebê. Tinha acontecido um aborto. Naquele momento estava sozinha em uma maca de exame e com um médico que secamente disse ”não tem mais nada aí”… saí de lá meio tonta e sem rumo… não conseguia raciocinar.  Chamei uma amiga que me levou para casa. O sonho do primeiro bebê não existia mais, a primeira roupinha que já tinha ganhado ficou guardada na gaveta. O prognóstico foi uma internação no outro dia e a realização de uma curetagem, pois de acordo com o médico foi um aborto retido. E assim foi feito, uma curetagem sem dores físicas, mas com dores na alma.

Superamos o acontecido, pesquisamos que era muito comum a perda na primeira gestação e assim seguimos. Passaram-se 02 meses e aí veio a confirmação da segunda gravidez. Dessa vez ficamos quietinhos, não comentamos com ninguém e esperamos o primeiro ultrassom para certificarmos. O coração estava explodindo doida para gritar ao mundo a novidade e dizer que seria mãe.  Esperamos o momento certo e veio a confirmação. Estava tudo normal um embrião com o coraçãozinho pulsando estava ali dessa vez… forte e já muito amado.

A gravidez transcorreu muito tranquila, descobrimos que teríamos um menino logo com 13 semanas de gravidez. O Caio – que significa alegre, contente, feliz – estava chegando para inundar os nossos corações. Arrumamos o quarto, fizemos chá de bebê que mais pareceu uma festa de aniversário, até mágico teve, fiz fotos de gestante, tudo muito bem preparado e caprichado para a chegada do primeiro neto dos dois lados. Caio chegou no dia 23/09/12 em uma noite de domingo de parto cesariana pesando 3365kg, com muita gente aguardando na sala de espera e o quarto cheio de gostosuras da vovó para receber as visitas.

Em meados do ano de 2015, Caio já com quase 3 anos resolvemos ter outro bebê. Assim parei de tomar anticoncepcional e esperamos. Em agosto fiquei grávida… felicidades mil, mas logo no primeiro ultrassom novamente não tinha coraçãozinho apenas o ovo embrionário vazio. Esperei o aborto espontâneo, mas não ocorreu e assim tive que me submeter a outra curetagem após quase 30 dias de espera. Todos da família ficaram sabendo e ficamos tristes novamente. Fiz em seguida uma série de exames, o meu marido também e não foi diagnosticado nada. Realizei um procedimento no útero para retirar algumas sinéquias. E assim se passaram 2 anos de tentativas.

Em outubro de 2017 me vi novamente grávida e ficamos em silêncio, rezei muito e pedi a Deus que desse tudo certo… queríamos muito outro bebê, a espera era muita e aguardávamos muito ansiosos. Já ia para o ultrassom com muito medo, coração disparado, mas cheio de esperança.  Também não foi dessa vez. A tristeza invadia o coração, mas a certeza que ainda existia a possibilidade, estava na minha alma. Essa tentativa não contamos para ninguém…. Após quase 30 dias de espera tive que me submeter a outra curetagem. Graças a Deus esses procedimentos não foram dolorosos no corpo, doíam no coração por mais uma vez não ter conseguido.

Fomos tocando a vida tentando tirar o foco daquele desejo de ser mãe novamente…até que em março de 2018, engravidei novamente. Dessa vez fiquei mais contida estava acreditando, mas bem consciente. O primeiro ultrassom foi muito emocionante ao escutar aquele coraçãozinho bater…estava ali aquele ser que não tinha ideia do quanto já amávamos. A cada exame uma ansiedade, mas a certeza de que estava ali a minha menina sem saber ainda o sexo.

E a gravidez transcorria tudo bem, até que com 23 semanas foi constatado que realmente a placenta estava totalmente baixa e que aminha gravidez era de risco. Recebemos a notícia e já fomos encaminhados para uma equipe que atende no Hospital Vila da Serra para o acompanhamento. Tinha o risco de histerectomia e de hemorragia.

Tive dois sangramentos importantes e após esse segundo fiquei de repouso absoluto em casa. Nesse momento iniciava-se uma etapa da minha vida de muito aprendizado e fé. Permaneci duas semanas de repouso absoluto em casa. Para uma pessoa superativa, elétrica e acelerada foi no início muito difícil, mas pela vida da minha pequena que estava por vir, superaria tudo.

Ao final da segunda semana em um domingo à noite tive o terceiro sangramento. Fomos para o hospital e dessa vez fiquei internada para ter os cuidados por perto. Realizava todos os dias ultrassons e foi constatado que estava com acretismo placentário e parte do cordão umbilical também estava abaixo nessa região da placenta. Foram dias de muito cuidado, medos, força, saudades do meu outro filho em casa…. das coisas que não tinha conseguido fazer… chá de fraldas, fotos gestante, acabar o quarto, lavar as roupinhas… e tinha muitos planos para assim que tivesse alta realizar. Sempre muito organizada fazia tudo planejado. Só que dessa vez não tinha o controle… como não temos o controle da vida….

No domingo, exatos 7 dias de internação com possibilidade de alta na segunda-feira, me arrumando para dormir no leito do hospital senti uma sensação diferente e quando vi estava sangrando. Daquele momento em diante foi pedindo a Deus pela minha menina, tremia muito e após exame do médico já fui encaminhada ao bloco cirúrgico. O coraçãozinho dela estava ali batendo e isso me dizia que estava tudo bem. Assim no dia 30/09/18 as 22:54h Laura – que significa louros, vitoriosa, triunfadora – nasceu com 1200kg, 38 cm e 27 semanas e 6 dias. O meu parto transcorreu bem, não precisei de nenhum cuidado especial e ouvi o choro da minha Laura bem alto. A pediatra logo disse: “menina brava”, logo pensei… essa é a minha Laurinha.

A partir desse dia conheci um amor profundo, tive que renovar a fé, acreditar mais e mais que temos que viver um dia de cada vez e que não temos o controle de nada. Vi a Laura na incubadora um dia depois do seu nascimento. Fui com muito esforço até a UTI neonatal e as primeiras notícias não foram muito boas. Laura não tinha reagido ao surfactante, tinha sangrado os pulmões. Aquelas primeiras horas de vida eram imprescindíveis para sua vida. Só podíamos rezar junto à incubadora e emitir energia de amor para aquele ser que lutava para viver.

A cada dia que entrávamos para lavar as mãos para entrar na incubadora sentíamos um frio na barriga, o que esperar… como encontraríamos a nossa pequena. Laura ficou em VM convencional por nove dias, em VAF por 10 dias, VNI por 2 dias, CPAP nasal por 14 e em cateter nasal por 12 dias. A cada conquista e evolução vibrávamos na esperança e certeza de irmos para a casa em breve.

Quando tudo parecia bem Laura já iniciava sucção no seio materno (momento mágico em que me senti mãe de verdade), de repente apresentou uma série de apneias e retornou ao CPAP nasal por 2 dias, evoluiu com piora sendo reintubada mantendo VM por 6 dias. Esses 6 dias foram de muita angústia e mais aprendizado. Laura tinha o seu tempo e não o nosso tempo.  Após foi para o CPAP nasal por 03 dias e o cateter nasal por 16 dias.

Até que chegou o grande momento de irmos para a ALA E, sair da UTI neonatal e irmos para um ambiente em que poderíamos ficar mais tempo aos cuidados com ela e aumentar a sucção em seio materno e desmamar do oxigênio.  A partir desse dia somente alegrias e conquistas. Fomos aprender a dar o banho, a lidar com os engasgos a dar a mamadeira e a ter os cuidados de um recém-nascido.

E chegou o tão esperado dia da alta, 73 dias vividos intensamente. Não conseguirei descrever o que senti nesse dia.  Uma mistura de sentimentos, alegria, receio do que viria pela frente e gratidão por tudo e todos. Recebemos a notícia em casa e foi uma euforia total. Laura estaria em casa para o Natal em família.

Agradeço imensamente a Deus que esteve comigo em todos os momentos, a Maria santíssima que me carregou no colo nas horas de dor e tristeza. A Jesus pela força e fé que tive que aprender nesse período que levo para toda a vida. Hoje sou uma pessoa melhor, enxergo as coisas de outra forma, sem tanta pressa e agradeço todos os dias pela vida da Laura e por ter nos dado força para passar por tudo.

Agradeço toda a equipe do Vila da Serra por todos os cuidados prestados a Laura com muita competência e dedicação. Um agradecimento especial às queridas mães, amigas, cúmplices e companheiras de UTI que fizemos laços inseparáveis e que tornou essa caminhada mais leve, grupo de mães que levarei no coração para o resto da vida.

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