Depoimento para Hospital Vila da Serra

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24

maio

2017

História de Elaine Diniz e sua filha Maria Clara

Gostaria de compartilhar meu milagre que aconteceu no hospital Vila da Serra, seremos eternamente agradecidos.


Estava no quinto mês de gestação, eu já era hipertensa, no entanto tudo estava caminhando muito bem e sob controle, jamais poderia imaginar que minha filha já estava quase chegando ao mundo. Maria Clara nasceu prematura com 26 semanas, pesava 700 gramas, tinha 30 cm. Eu não tinha realizado chá de fraldas, lembrancinhas de maternidade, lavado as roupinhas, preparado a malinha e o quartinho ainda nem estava pronto para receber minha Maria em casa. Tinha muita vontade de fazer um ensaio fotográfico, mas não deu tempo, tenho poucas fotos que tirei durante minha gravidez.

Minha pressão arterial começou a subir quando estava com 23 semanas, com acompanhamento médico e muito repouso durante 15 dias, conseguimos manter Maria Clara em minha barriga até 26 semanas de gestação, naquele momento, Maria continuar no meu ventre era inviável, tanto para ela quanto para mim. Minha placenta já estava envelhecida, o líquido amniótico com volume no limite inferior, o estudo do Doppler mostrava oxigenação limítrofe, não sentia ela mexer com tanta freqüência, os achados médicos indicavam feto centralizado. Minha pressão arterial não controlava, mesmo tomando três tipos de medicamentos, sendo eles: Metildopa, Nifedipino e Apreselania.

Nessa altura estava também tomando ASS, minha pressão chegou a 22/12, não sentia nada, exceto uma tremedeira excessiva onde mal conseguia controlar um copo nas minhas mãos, quando eu ficava em pé minhas pernas ficavam roxas e com várias manchas, isso me assustava muito, mais meu maior medo era com Maria Clara, queria que ela ficasse na minha barriga, seu lugar era ali, ela precisava crescer mais, desenvolver…. ainda era muito pequena.

Meu marido Rodrigo, sempre esteve do meu lado, me deu todo apoio, tinha uma força de leão, sempre positivo, por mais que no fundo ele estava com muito medo, mas nunca deixou transparecer, durante os exames sempre ficava ao meu lado, dizia que tudo iria ficar bem.

No dia 12 de Maio senti uma dor forte no estômago, fui para o hospital, me disseram que era necessário interromper a gestação naquele momento, tomei a primeira dose de corticóide, segundo os médicos este remédio iria ajudar a desenvolver os pulmões da Maria Clara, no dia seguinte a segunda dose. Fui transferida para o Hospital Vila da Serra, o hospital que Deus reservou para que se concretizasse o milagre nas nossas vidas.

Nascimento da Maria


Maria Clara nasceu o dia 14/05/2016 às 18:00, prematura extrema, Rodrigo não foi autorizado a entrar na sala de parto, segundo o médico era um caso de extremo risco tanto para mãe quanto para filha, os médicos chegaram a dizer que a prioridade seria minha vida, Maria seria conseqüência.

Na sala de parto comecei a rezar e cantava uma música que me ajudou muito, “aquieta minh’alma”. Nos meus pensamentos eu repetia sem cessar “é preciso acreditar e confiar no que o senhor me diz, aquieta minh’alma, faz meu coração ouvir sua voz, só assim eu não me sinto só”.

Realmente eu não estava só, eu conseguia sentir um perfume de rosas, senti anjos do nosso lado, aquela equipe me acolheu, a anestesista pegou na minha mão e disse “confia, já deu tudo certo”.

Maria Clara chorou bem baixinho, Dra Tilza, pediatra da UTI, levou Maria para que eu pudesse conhecer, não pude pega-la no colo, dei um beijo apenas e disse “Deus te abençoe minha filha”, ela era muito pequena, sua cabecinha era de um tamanho de um pote de coletor de urina.

Daquele momento em diante eu sentia no meu coração que o caminho a ser percorrido seria dolorido, teríamos que ser forte, amadurecer, mais nossa vitória chegaria, eu e o Rodrigo iríamos levar Maria para nossa casa, para o quarto dela que foi planejado com muito carinho, eu sabia que seria difícil, mas Deus estaria conosco, nos segurando e assegurando que tudo ficaria bem e não deixaria nos dois desistirmos.

E assim voltei para o quarto e ela foi levada para UTI, precisava de ajuda, chorei muito na primeira noite, pois minha filha amada não estava mais em meu ventre nem do meu lado, conseguir ver ela apenas três dias após seu nascimento, durante o parto tive hemorragia como conseqüência anemia e muita fraqueza, não conseguia ficar em pé, meu marido tirava fotos e levava para que eu pudesse ver.

Primeira visita à Maria


Na UTI Neonatal somente era autorizado a entrada dos pais, fui pela primeira vez numa cadeira de rodas, pois ainda me sentia muito fraca, tinha dificuldades de ficar em pé. Recordo que toquei suas mãos, seu corpo e disse pra ela: “ filha , você sabe o quanto você foi planejada por nos, amamos muito você, vamos estar ao seu lado todos os dias, você não estará sozinha”, durante a gravidez cantava para ela a música aos olhos do pai, ela gostava, mexia muito nesse momento, ali repeti o que fazia todos os dias, cantei para ela, e todos os dias fazia a mesma coisa, esquecia todos que estavam ao nosso redor, e cantava para ela, mesmo ela dentro daquela incubadora, onde eu abria apenas a porta para que pudesse tocá-la e ela escutar minha voz.

A primeira visita na UTI foi fria e assustadora, pois ver minha filha em uma incubadora partiu meu coração. Fios, apitos, luzes, esparadrapos, agulhadas e a presença de um tubo em sua boca foram suas primeiras sensações no mundo externo, longe do colinho gostoso e quentinho que qualquer mãe ansiosa deseja oferecer.

Roupinhas cheirosinhas, estampadas e fofinhas não fazem parte desse universo ainda, pois enquanto os bebês estão na incubadora, às fraldinhas, a touquinha e as gazes, que imitam luvinhas e meinhas, são as únicas peças do seu limitado guarda roupa.

Mas esse foi apenas o primeiro dia, com as primeiras sensações, pois com o passar do tempo, aprendi a ver a UTI com outros olhos, a conhecer mães com as mesmas experiências, e dia após dia, me dei conta que estava evoluindo como pessoa, e principalmente como mãe, aquele lugar é espetacular, ali realizam-se grandes milagres.

Na UTI não existe previsão, tudo acontece à passos de tartaruga em mãos de inúmeras leoas que cuidam carinhosamente dos nossos filhos, existem anjos naquele lugar, anjos que cuidam 24 horas, que presta toda assistência necessária, anjos que cuidam dos pais, que nos diz palavra positivas a todo instante, que nos conta como nossos filhos se comportam no momento em que íamos para nossa casa, tentar descansar para retornar no dia seguinte.

Cada visita naquela UTI Neonatal era repleta de alegria misturada com dor e preocupação. Olhar Maria, tão esperada, tão amada, mas ao mesmo tempo tão frágil cercada de tantos aparelhos, tantas enfermeiras, tantos bips, é de doer o corpo, a alma e o coração.  É oxigênio, é sonda, é incubadora, é luz, é medidor de saturação e muito mais, tudo ligado ao mesmo tempo e bipando a cada minuto.

Dificuldades Vencidas


Maria não tolerava leite, mesmo assim ordenhava, pois em meu coração tinha a certeza que em breve ela toleraria, e quando esse momento chegasse ela teria o meu leite, leite que a curaria de todos os males e ajudaria a desenvolver. Assim, depois de quase 37 dias ela tolerou leite, o lactário, lugar onde as mãezinhas realizam a coleta do leite, passou a ser o lugar onde eu freqüentava diariamente, Maria Clara tomou leite materno exclusivo até quase cinco meses, o leite passava pela sonda e eu sempre buscava acompanhar aquele momento, pois era ali que eu sentia um vínculo se formando e estabelecendo, onde eu conseguia compartilhar com ela algo que pudesse ajudar alimentar, eu me sentia útil.

Meu marido alugou um apartamento em Nova Lima, para que eu pudesse ficar mais perto da nossa filha e garantir o leite de cada dia. Maria Clara ao nascer foi entubada na sala de parto, seu pulmão precisava de ajuda, pois não era maduro o suficiente para respirar sozinho. Teve hemorragia no terceiro dia de vida, foi necessário realizar cirurgia para correção do PCA, pneumotórax no pós operatório, apresentou hipertensão pulmonar nos pós operatório de fechamento do canal arterial, fez uso de ventilação prolongada, demandou parâmetros ventilatórios altos e foi ventilada com alta freqüência, fez uso de ácido nítrico na dose máxima.

Durante sua internação apresentou vários episódios de sepse, choque séptico, fazendo uso de antibióticos  fortes, como: Vancomicina, Amicacina, Oxacilina, Polimixina, dentre outros.
Evoluiu com edema de tronco importante, com suspeita de trombose, fez uso de clexane. Teve Osteopenia da prematuridade.
Apresentou icterícia neonatal, necessitando de fototerapia, apresentou hipotireoidismo transitório.
Apresentou quadro de enterocolite necrosante, recebeu mais de 10 transfusões de sangue, teve pneumonia. Operou de Hérnia inguinal, realizado procedimento bilateral.

No que se refere ao quadro neurológico, evolui com hemorragia grau 1, no entanto foi absorvida. No quadro oftalmológico, teve retinopatia estágio 1 que também regrediu.
Fui autorizada pegar Maria no colo 35 dias após seu nascimento, foi um momento mágico e muito tenso, por quase três horas fiquei com ela no colo, quase não podia mexer, pois ela continuava conectada aos fios e máquina de oxigênio, cantei para ela, dizia o tempo todo o quanto a amava.

Foram no total 280 dias de internação, dias difíceis, instáveis, mas sempre tivemos a certeza que não estávamos sozinhos. Perdi as contas de quantas vezes entrei para o banheiro daquele hospital, onde ajoelhava e chorava, clamava ao senhor por sua misericórdia, pois o fardo estava pesado, doía muito, como doe na alma vez seu filho sofrendo e você não pode fazer nada por ele, somente rezar e ficar ao seu lado, queria tirá-la daquele lugar, levar ela para nossa casa.

Ficamos ao lado da nossa filha todos os dias, sabíamos de tudo que faziam com ela, cada procedimento era acompanhado por mim ou pelo Rodrigo, exceto alguns que não podíamos participar, ficávamos horas de pé ao lado da incubadora, saímos apenas para ir ao banheiro e alimentar, eu era a primeira a chegar e o Rodrigo o último a ir embora, chorar ao lado dela era proibido, esse era meu combinado com Rodrigo, ela precisava de nos dois fortes, precisávamos passar segurança para ela. Sempre dizíamos: “filha não desista, você não está sozinha, precisamos de você, fora daqui existe muitas pessoas que te amam, existem vários lugares legais, existe músicas com desenhos divertidos, você é uma estrelinha de Deus e vai brilhar muito ainda nessa vida, você é nosso milagre que Deus nos emprestou, um exemplo para nós e muitas pessoas, você ajudará muitas pessoas crescerem”.

Primeiros Momentos

Ela sempre reagia, olhava para nós, apertava meus dedos ou simplesmente soltava aquele sorriso. De todo o tempo que ficamos no hospital, recordo três momentos terríveis. O primeiro foi quando eu tive alta. Saímos do hospital, sem Maria no meu ventre ou em minhas mãos, levávamos apenas malas, o que eu queria naquela hora não estava comigo. É muito doloroso ver todas as outras mães saindo com os seus bebês. Você fica se perguntando quanto tempo vai levar para chegar a sua vez.

O segundo momento foi quando Maria teve pneumonia,  ela fazia eventos a todo instantes, sua saturação e batimento cardíaco despencavam, era assustador ficar ao lado dela, era aspirada de hora em hora, nessas alturas seu oxigênio estava 100 %, a máquina respirava por ela,   havia umas 10 bombas de remédios correndo ao mesmo tempo pelo seu corpo.

A última vez que Maria quase nos matou do coração foi um dia anterior a alta, tinha retornado ao hospital em virtude da adaptação do medicamento para refluxo em casa, ela já não sentia dor, a alta estava programada para o dia seguinte, então ela começou a com um choro inconsolável e tumefação em região inguinal, precisou operar às pressas, pois havia encarcerado uma hérnia inguinal à esquerda, foi realizado também o procedimento de retirada a direita, pois havia risco de encarceramento. Maria voltou para UTI, entreguei ela nas mãos de uma enfermeira que a levou para o bloco, ela foi entubada novamente, recuperou-se bem.

Hoje, Maria tem 10 meses, adora músicas, desenhos, seus brinquedos, tudo que pega coloca na boca, sorri bastante, ama sua família, já está sentando com apoio, come comida, não gosta de ficar no  bebê conforto.  Seu sorriso é compensador, por instantes conseguimos esquecer tudo que passamos, tenho a sensação que Deus nos carregou no colo, nosso amor por ela é imenso!  

Vencemos a batalha e enquanto estou escrevendo nosso testemunho do amor de Deus, nossa estrelinha está dormindo em seu quarto, tranquila, sem aparelhos, sem tubo ou sonda, com seu paninho e seu bico inseparáveis. Inseparável como nós, que nunca a abandonará.

Agradecemos a Deus por tudo que passamos, hoje somos outras pessoas, nossa família não é a mesma, nossos amigos não são os mesmos, todos cresceram conosco.
Agradecemos a todos que rezaram, oraram, clamaram a Deus pela nossa família, recebam o nosso muito obrigado, vocês fizeram toda diferença.

Agradecimento ao Hospital Vila da Serra


Agradecemos a toda família Vila da Serra, somos eternamente gratos a vocês, não desistiram dela nem por um minuto, Dra Lucinha, jamais vou esquecer o quanto você lutou pela vida da Maria, dos seus abraços acolhedores, suas palavras sábias, Dra Simone, também sempre presente, lutando pela vida da Maria, agindo com sabedoria e precisão nos momentos certos. E inúmeros outros profissionais que nunca desistiram dela e de todas outras estrelinhas que ali estavam, alguns já estão ao lado do papai do céu, lutaram bravamente como leões e venceram, cumpriram a vontade de Deus, não posso esquecer de citar, três grandes estrelas: Isis, Arthur e Cecília, hoje brilham no céu, temos orgulho de vocês e do seu pais.
Fizemos grandes amigos, que hoje fazem parte da nossa família, compartilhamos alegrias e tristezas, um ajudando o outro.

O que tenho para dizer a você que está passando por uma situação difícil? Apenas creia e confie em Deus, ele é bom, cuida de nós, sabe o que é melhor para nossa vida. Deixe seus medos e aflições no colo do nosso Deus e deixe que ele cuide de tudo! Sonhe!!!  imagine as coisas boas que virão após a tempestade, acredite e confie,tudo passa, como diz a música: “a vida é um trem bala parceiro e agente é só passageiro preste a partir”

Assim como muitos testemunhos nos ajudaram espero que o nosso possa ajudar muitos pais que estão passando vivenciando a prematuridade…

Elaine, Rodrigo e Maria Clara

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